Autor: Silver Marraz

Transformamos o amor em espetáculo porque tememos o silêncio que revela quem realmente somos quando o palco se apaga. Por Silver D’Madriaga Marraz Amar, hoje, tornou-se um ato público. Já não basta sentir; é preciso demonstrar. O amor, antes território íntimo, migrou para o palco das aparências, onde a emoção é medida por gestos visíveis e a sinceridade se confunde com exposição. Vivemos tempos em que o afeto se transforma em linguagem performática — calculado, editado, compartilhado. O que deveria ser encontro tornou-se espetáculo. E o que era emoção passou a ser estratégia. A performance do amor não é uma…

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Vivemos tão apressados em chegar que esquecemos de estar. Por Silver D’Madriaga Marraz A pressa tornou-se o novo ritmo do mundo. Já não se trata apenas de correr, mas de não saber parar. Vivemos num tempo em que a imobilidade é vista como falha, o silêncio como perda de tempo e o descanso como desperdício. O verbo “ser” foi substituído por “fazer”, e o fazer, por “produzir”. A lentidão passou a ser confundida com preguiça, e o ócio, com inutilidade. Assim, o presente deixou de ser morada e transformou-se em corredor — um espaço de passagem para o próximo objetivo,…

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Nunca se falou tanto de amor — e nunca se amou tão pouco. Por Silver D’Madriaga Marraz O amor, que durante séculos foi território da entrega e do mistério, tornou-se mais uma vitrine na paisagem da visibilidade. Em tempos de performance emocional, amar deixou de ser verbo silencioso para se tornar espetáculo de afetos calculados. Declara-se amor em legendas, mede-se reciprocidade por tempo de resposta, traduz-se presença em notificações. O que antes era vivência íntima e inefável, hoje precisa ser publicamente validado para existir. Assim, o sentimento que deveria nos libertar se transforma em mais uma forma de vigilância: um…

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Nunca estivemos tão cercados — e, paradoxalmente, tão sozinhos. Por Silver D’madriaga Marraz Vivemos em um tempo em que a solidão deixou de ser destino para se tornar projeto. A cultura do “eu” transformou o sujeito em empresa, a convivência em transação e o outro em obstáculo. Ser autônomo virou sinônimo de ser invulnerável; depender passou a ser sinônimo de fraqueza. E, nessa lógica, o laço humano — que sempre foi o fio invisível da civilização — começou a se romper, fio a fio, sob o peso da idolatria da independência. O individualismo contemporâneo não é apenas uma escolha moral,…

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O mundo ensina a resistir; a vida, no entanto, só floresce quando permitimos quebrar. Por Silver D’Madriaga Marraz Vivemos numa era que idolatra a invencibilidade. A força tornou-se palavra de ordem, lema de sobrevivência e senha de pertencimento. Desde cedo, aprendemos a disfarçar as quedas, a conter o choro, a sufocar o medo e a vestir a armadura da autossuficiência como se o simples ato de sentir fosse um sinal de fraqueza. A vulnerabilidade foi banida para o território da vergonha, e o erro, para o exílio da exclusão. No entanto, é justamente nesse banimento da fragilidade que a humanidade…

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Num mundo que aprendeu a reagir, mas desaprendeu a sentir, a compaixão é o último ato de coragem. Por Silver D’Madriaga Marraz Vivemos em uma era de reações automáticas. Tudo se responde, tudo se comenta, tudo se julga — mas quase nada se compreende. A velocidade com que vivemos transformou o sentir em obstáculo, e a empatia em luxo. O tempo do algoritmo não comporta pausas para a escuta; a dor alheia precisa caber em legendas curtas, e o sofrimento coletivo deve ser traduzido em campanhas passageiras. É nesse cenário de exaustão emocional e saturação moral que a compaixão se…

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Nada revela mais sobre a vida do que a forma como se foge da morte Por Silver D’Madriaga Marraz Vivemos em uma época que nega o fim. A morte, que por séculos foi uma presença íntima — parte do ciclo natural, companheira silenciosa do tempo —, tornou-se agora um escândalo. Um erro do qual tentamos nos esconder com filtros, promessas de longevidade e ilusões de controle. O século XXI transformou a finitude em tabu, como se o simples ato de morrer fosse uma falha pessoal. A indústria da juventude, os algoritmos da imortalidade e o culto da aparência trabalham juntos…

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Quanto mais o mundo se exibe, menos ele se sente. Por Silver D’Madriaga Marraz Vivemos em um tempo em que a realidade precisa de plateia para existir.As experiências, os sentimentos, até mesmo as tragédias, só parecem reais quando ganham curtidas, visualizações ou comentários. O mundo tornou-se um grande palco, e todos nós, atores e espectadores de uma encenação contínua — o espetáculo da vida pública que esvazia o sentido da vida interior. O pensador francês Guy Debord, ainda nos anos 1960, já descrevia o fenômeno: o espetáculo não é apenas uma coleção de imagens, mas uma relação social mediada por…

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Um povo que esquece suas raízes cava o próprio desaparecimento. Por Silver D’Madriaga Marraz Lembrar é resistir.Em tempos de aceleração e esquecimento, a memória se tornou um ato político. Vivemos em uma sociedade que idolatra o novo — novas tecnologias, novas narrativas, novos discursos — e despreza tudo o que parece velho, lento ou incômodo. Nesse culto ao imediato, o passado é descartado como um arquivo obsoleto, e o esquecimento se confunde com progresso. Mas toda vez que apagamos o que fomos, perdemos o chão que sustenta o que somos. A ancestralidade é o vínculo invisível entre gerações. Ela nos…

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Corremos tanto para não ficar para trás que esquecemos de onde estamos indo. Por Silver D’Madriaga Marraz Vivemos na era da exaustão disfarçada de sucesso. Nunca se trabalhou tanto, se correu tanto, se buscou tanto “fazer mais em menos tempo” – e, paradoxalmente, nunca se sentiu tanto vazio, cansaço e desorientação. A sociedade contemporânea transformou a produtividade em valor moral, e o descanso em culpa. Estar cansado virou sinal de virtude. O ócio, sinônimo de fracasso. Nas últimas décadas, a cultura do desempenho substituiu a ética do bem-estar. Trabalhar não é mais apenas sustento; é identidade. “Ser alguém na…

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