LUZ, CÂMERA, CRÍTICA! — Por Manú Cárvalho
Há filmes que querem mudar o cinema. Outros, mais raros e talvez mais honestos, entendem que esse gesto já foi feito antes, e que o que resta agora é olhar para trás com afeto, consciência histórica e alguma humildade artística. Nouvelle Vague, dirigido por Richard Linklater, pertence claramente ao segundo grupo. Não é um filme interessado em reinventar a linguagem, provocar rupturas ou tensionar conceitos. É um filme que prefere recriar um momento decisivo da história do cinema como quem folheia um álbum de fotografias, atento aos detalhes, às pessoas, aos gestos aparentemente banais que, vistos de longe, se tornaram fundadores.
Desde seus primeiros minutos, Nouvelle Vague deixa evidente sua postura. Estamos diante de uma obra que acompanha os bastidores das filmagens de Acossado, marco inaugural do movimento liderado por Jean-Luc Godard e seus contemporâneos. Mas Linklater não se aproxima desse material com o peso da reverência acadêmica nem com a ousadia iconoclasta que caracterizou a própria Nouvelle Vague nos anos 1950 e 1960. Ele se aproxima como um cineasta maduro, consciente de seu lugar no tempo, interessado menos em reencenar a revolução e mais em entender como ela se parecia enquanto ainda não sabia que seria uma revolução.
Essa escolha define todo o filme. Nouvelle Vague não é explosivo, nem radical, nem estruturalmente desafiador. Ele é saltitante, leve, quase cotidiano, como se o cinema estivesse acontecendo ali por acidente, entre conversas no carro, cafés improvisados, discussões técnicas e ideias lançadas ao vento. Linklater filma o nascimento de um clássico como quem filma um dia de trabalho, e essa decisão é, ao mesmo tempo, a maior virtude e o maior limite do longa.
O Jean-Luc Godard interpretado por Guillaume Marbeck está longe da figura mitológica consolidada pela história. Aqui, ele é inquieto, verborrágico, muitas vezes arrogante, frequentemente engraçado sem perceber. Marbeck constrói um personagem que pensa rápido demais para o próprio corpo, que fala como quem formula ideias enquanto as diz, que tropeça em suas próprias convicções. Não há a tentativa de transformá-lo em herói, nem em vilão. O filme se permite rir dele, especialmente de suas frases carregadas de cinéfilia, de seus discursos inflamados sobre cinema e de sua obsessão em romper regras que ainda nem haviam sido completamente estabelecidas.
Essa abordagem é fundamental para que Nouvelle Vague não se transforme em uma cinebiografia solene demais. Linklater entende que o riso, aqui, é uma forma de humanidade, não de desrespeito. Godard surge como alguém brilhante, sim, mas também cansativo, difícil, muitas vezes autocentrado. Um artista em formação, não um gênio pronto. Essa decisão narrativa impede o filme de se levar a sério demais — algo que seria fatal em uma obra sobre um movimento tão frequentemente tratado como sagrado.
Ao redor dele, o filme constrói um mosaico de figuras históricas que transitam entre o protagonismo e a aparição afetiva. Zoey Deutch, como Jean Seberg, entrega uma atuação de interioridade silenciosa. Sua presença não é apenas ornamental ou simbólica. Ela observa, reage, absorve. Existe algo de muito contemporâneo na forma como o filme permite que Seberg exista não apenas como musa ou atriz, mas como alguém tentando se localizar naquele ambiente criativo dominado por homens, ideias grandiosas e improvisos constantes. Deutch evita qualquer excesso e constrói uma personagem que carrega, no olhar, tanto fascínio quanto estranhamento.
Já Aubry Dullin, como Jean-Paul Belmondo, talvez seja a atuação mais naturalmente carismática do filme. Seu Belmondo parece ter consciência de que algo grande está acontecendo, mas não demonstra urgência em transformá-lo em mito. Ele existe no presente, descolado, físico, espontâneo. Há uma leveza quase insolente em sua performance, como se o futuro estrelato fosse apenas um detalhe distante. O filme se beneficia muito dessa energia, porque ela ajuda a manter a narrativa longe do tom reverente que poderia engessá-la.
O elenco de apoio funciona como uma constelação de presenças familiares para quem conhece minimamente a história do cinema francês. Truffaut, Chabrol, Suzanne Schiffman, entre outros, surgem não como estátuas vivas, mas como colegas de trabalho, amigos, cúmplices de uma inquietação comum. Linklater não transforma essas figuras em símbolos carregados de significado. Elas circulam, conversam, discordam, riem. Estão ali como pessoas antes de serem ícones. Para o espectador cinéfilo, há prazer evidente no reconhecimento. Para quem não domina essas referências, o filme ainda se sustenta como um retrato de grupo, uma comunidade criativa em ebulição.
Visualmente, Nouvelle Vague aposta em uma fotografia em preto e branco rica em textura, que não busca apenas reproduzir o visual da época, mas capturar sua sensação. As ruas de Paris não são cartões-postais idealizados. São espaços vivos, atravessados por pessoas, carros, sons, luzes imperfeitas. A direção de arte trabalha com precisão, mas sem ostentação. Nada parece excessivamente limpo ou cuidadosamente arrumado demais. O filme entende que a autenticidade está na imperfeição, na sensação de que tudo poderia desmoronar a qualquer momento, exatamente como o cinema que estava sendo feito ali.
Linklater flerta, em alguns momentos, com a linguagem de Acossado, especialmente em cenas que dialogam diretamente com o clássico. Há conversas filmadas dentro do carro, caminhadas por cenários icônicos, enquadramentos que evocam a liberdade formal de Godard. Mas o diretor nunca cruza completamente essa linha. Ele não tenta imitar de forma integral, talvez por entender que imitar a ruptura seria transformá-la em fórmula, algo que vai contra o espírito original da Nouvelle Vague. Em vez disso, ele usa essas referências como ecos, não como moldes.
O roteiro, assinado por Holly Gent, Laetitia Masson e Vincent Palmo Jr., recusa uma estrutura dramática convencional. Não há um grande conflito central, nem uma trajetória clara de ascensão ou queda. O filme se constrói por acúmulo de situações, diálogos, pequenos impasses criativos. Essa opção reforça o caráter cotidiano da narrativa, mas também limita seu impacto. Nouvelle Vague raramente aprofunda as tensões que apresenta. As discussões sobre linguagem, autoria e ruptura aparecem, mas não são levadas às últimas consequências. Elas existem mais como pano de fundo do que como motor dramático.
E é aqui que surge a principal ambiguidade do filme. Ao optar por não super dramatizar o ato criativo, Linklater evita um erro comum em cinebiografias sobre artistas: transformar cada decisão em um evento épico, cada dúvida em um trauma, cada ideia em iluminação divina. Essa contenção é louvável. Ao mesmo tempo, ela faz com que o filme, tematicamente, caminhe com passos curtos. Há uma sensação persistente de que Nouvelle Vague poderia ir mais fundo, não necessariamente na forma, mas no discurso.
O filme se contenta em observar, recriar, entreter. Ele não tensiona a figura de Godard, não problematiza de maneira incisiva o impacto cultural da Nouvelle Vague, não questiona suas contradições internas. Tudo isso permanece sugerido, nunca explorado. Para alguns espectadores, essa atitude pode soar como maturidade artística. Para outros, como uma falta de ambição deliberada. Ambas as leituras são válidas, e o filme parece confortável com essa ambiguidade.
Há, no entanto, algo profundamente honesto nessa escolha. Nouvelle Vague não tenta ser mais importante do que é. Ele não se disfarça de manifesto, nem se vende como obra definitiva sobre um movimento histórico. Ele aceita seu papel como filme-afeto, como gesto de amor ao cinema e às pessoas que o constroem. Linklater parece consciente de que qualquer tentativa de competir com o impacto de Acossado estaria fadada ao fracasso. Em vez disso, ele oferece uma experiência prazerosa, sensorial, reconhecível.
Essa postura faz com que o filme funcione quase como um encontro entre cineastas e cinéfilos. Há algo de reconfortante em assistir a Nouvelle Vague. Ele gera sorrisos, provoca reconhecimento, desperta memórias — mesmo em quem não viveu aquela época. É um filme que convida o espectador a caminhar junto, não a ser desafiado ou confrontado. E isso, embora limite seu alcance artístico, também define sua identidade.
Linklater nunca foi um cineasta de grandes gestos espetaculares. Seu cinema sempre se interessou pelo tempo, pela conversa, pelo intervalo entre acontecimentos. Aqui, esse olhar encontra um objeto que combina perfeitamente com sua sensibilidade. Nouvelle Vague é um filme sobre o intervalo entre o cinema que existia e o cinema que estava prestes a nascer. Sobre o momento em que ninguém sabia ainda que estava mudando tudo. E talvez seja justamente essa falta de consciência histórica imediata que o filme captura com mais precisão.
Ao final, fica a sensação de que Nouvelle Vague é menos um retrato definitivo da Nouvelle Vague e mais uma experiência de convivência com ela. Um filme que prefere a leveza ao peso, o carinho à provocação, a observação à tese. Ele não transforma o cinema, mas lembra por que o cinema importa. E, em tempos em que tantos filmes tentam se justificar por sua grandiosidade, há algo de profundamente valioso em uma obra que se contenta em ser, simplesmente, prazerosa.
⭐ Nota final: 4 estrelas

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