
O Brasil encerra 2025 com uma fotografia aparentemente positiva: inflação sob controle, crescimento ainda em terreno positivo e desemprego em patamar historicamente baixo, segundo estimativas oficiais. Mas por trás dos indicadores, a sensação nas famílias é outra: tudo continua caro, o crédito está proibitivo e consumir virou um ato calculado.
É nesse ambiente que ganha forma uma “classe média silenciosa” – brasileiros que seguem pagando contas, mantendo algum padrão de vida, mas abrindo mão de conforto, consumo e mobilidade social. Ao mesmo tempo, o país assiste a um distanciamento mais nítido entre quem consegue planejar e investir e quem está apenas sobrevivendo.
2025 em números: inflação recua, juros travam e crescimento esfria
Ao longo de 2025, a inflação perdeu força. O IPCA acumulado em 12 meses caiu para 4,68% em outubro, o menor nível do ano e abaixo do que o mercado esperava.
Ainda assim, a taxa segue acima do centro da meta de 3% perseguida pelo Banco Central, o que ajuda a explicar a postura mais dura da política monetária. Depois de elevar fortemente os juros a partir de 2024, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 15% ao ano, sua máxima em quase 20 anos, por três reuniões consecutivas até novembro de 2025.
De um lado, o governo e organismos internacionais projetam um crescimento em torno de 2,2% para o PIB em 2025, depois de 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024 – um claro movimento de desaceleração.
Do outro, o próprio Ministério da Fazenda trabalha com inflação próxima de 4,6% em 2025, revisada ligeiramente para baixo em relação às projeções anteriores, mas ainda acima do alvo oficial.
No front fiscal, a preocupação é crescente: a dívida bruta já alcança cerca de 78% do PIB e há projeções de que possa se aproximar de 84% até 2028, caso o país não entregue superávits mais robustos.
O resumo é um quadro misto:
- Inflação em queda, mas ainda incômoda;
- Juros em patamar restritivo, com o BC sinalizando manutenção prolongada;
- Crescimento moderado, abaixo dos anos anteriores;
- Dívida alta, exigindo disciplina fiscal.
A vida real: a dificuldade de comprar em todos os setores
Se nos gráficos a economia “anda”, na rotina da população ela tropeça. A sensação de carestia não se limita a um setor específico – ela é transversal.
Alimentação: o supermercado como termômetro
Mesmo com a desaceleração da inflação, a memória recente de altas fortes em alimentos segue viva. As famílias trocaram marcas, reduziram proteínas, cortaram supérfluos. Para muitos, “fazer uma boa compra do mês” virou exceção, não regra.
Habitação: aluguel e imóveis pressionando o orçamento
O mercado imobiliário sofre com o histórico de aumento de custos de construção e com a própria dinâmica urbana. Aluguéis seguem elevados nas grandes cidades, comprometendo uma fatia maior do salário. Já o sonho do imóvel próprio esbarra em:
- preços ainda altos dos imóveis novos;
- financiamento imobiliário atrelado a juros elevados;
- exigência de entrada robusta.
Educação: reajustes acima da inflação
Escolas e universidades repassaram custos crescentes de estrutura, tecnologia e folha de pagamento. O resultado é que mensalidades subiram mais do que o IPCA em muitos casos, empurrando famílias para:
- troca de escolas;
- redução de cursos extras;
- adiamento do ensino superior privado.
Transporte e automóvel: o carro como bem quase de luxo
Com preços médios de carros zero em patamares historicamente altos e juros de financiamento ainda pesados, o automóvel novo tornou-se um objetivo distante para grande parte da população. O mercado de usados ganhou força, mas também encareceu. Ao mesmo tempo, transporte por aplicativos e custos de combustível seguem pressionados.
Saúde e bem-estar: planos de saúde e serviços mais seletivos
Planos de saúde reajustados, consultas particulares mais caras e serviços de bem-estar e estética concentrados em faixas de renda mais altas compõem um cenário em que ter assistência médica de qualidade virou marcador social.
Lazer e viagens: o primeiro item cortado
Pacotes de viagem, passagens aéreas e hospedagens mantêm valores elevados. Para a classe média silenciosa, viajar se tornou algo planejado com muita antecedência – quando não simplesmente suspenso.
Crédito caro: quando o sistema financeiro vira barreira, não ponte
Com a Selic em 15% ao ano desde setembro de 2024, o encarecimento do crédito se consolidou ao longo de 2025.
Os reflexos aparecem em:
- Financiamentos mais longos e caros, especialmente para imóveis e veículos;
- Cartão de crédito com juros “impraticáveis” para quem entra no rotativo;
- Bancos mais seletivos, exigindo histórico limpo e garantias;
- Empresas e famílias adiando investimentos e compras relevantes.
Na prática, o crédito – que deveria funcionar como alavanca de mobilidade e consumo – passou a ser uma barreira de entrada. Quem consegue crédito barato (ou tem capital próprio) avança. Quem depende das linhas mais caras recua.
Desigualdade: dados mais estáveis, sensação de fosso maior
Os indicadores de desigualdade mostram nuances importantes. O Índice de Gini, que mede a concentração de renda, caiu para 0,518 em 2023, o menor nível da série histórica nacional recente, e se manteve em patamar similar em 2024.
Em recorte urbano, a desigualdade também recuou, com o Gini das cidades atingindo 0,534 em 2024, o nível mais baixo da série.
Ao mesmo tempo, estudos mostram que o país registrou os menores índices de pobreza em mais de uma década, impulsionados por aumento da renda do trabalho, programas sociais e reajustes do salário mínimo.
Mas isso não significa um país mais igual – significa um país menos miserável, porém ainda profundamente desigual. A distância entre:
- quem consegue poupar, investir e adquirir bens de maior valor;
- e quem apenas mantém o básico em dia
parece crescer no cotidiano, mesmo quando os dados apontam ligeira melhora estatística.
A classe média silenciosa sente isso na pele: não está em pobreza extrema, mas perdeu acesso a:
- escola que queria;
- plano de saúde almejado;
- imóvel em determinada região;
- carro novo em determinado padrão;
- viagens que antes cabiam no orçamento.
A desigualdade, aqui, não é só número de Gini. É diferença de horizonte.
O papel das alternativas ao financiamento tradicional
Nesse ambiente de juros altos e crédito restrito, cresce o espaço para modelos de compra programada e colaborativa, que fogem da lógica clássica do financiamento bancário.
Especialistas apontam que modalidades sem juros, como os consórcios, ganharam relevância justamente porque:
- permitem organizar a aquisição de bens de alto valor ao longo do tempo;
- criam disciplina de poupança forçada;
- expõem menos o consumidor às oscilações da taxa básica de juros;
- encaixam melhor no orçamento de famílias que não têm folga para arcar com juros elevados.
A expansão desse tipo de instrumento conversa diretamente com o comportamento da nova classe média: menos impulso, mais planejamento.
2026 no horizonte: crescimento moderado e teste de paciência
Para 2026, o cenário de consenso projeta um Brasil que continua crescendo em torno de 2% a 2,4% ao ano, com inflação convergindo gradualmente para patamares mais próximos da meta, mas ainda acima do ideal.
Há expectativa, no mercado e no governo, de que o Banco Central possa iniciar um ciclo de cortes de juros ao longo de 2026, caso a trajetória da inflação se mantenha sob controle e as contas públicas avancem na direção de maior disciplina.
Até lá, a pergunta central permanece: como um país que cresce pouco, com juros altos e dívida elevada, consegue evitar que o fosso entre classes se aprofunde ainda mais?
Enquanto isso não se resolve na macroeconomia, a resposta da classe média silenciosa continua a mesma em 2025 e entra em 2026: consumir menos, planejar mais – e, quando possível, tentar reconstruir aos poucos o poder de compra perdido.


4 Comentários
Excelente análise, precisa e de fácil entendimento. Parabéns!
Muito interessante a matéria 👏👏
Um raio X perfeito, com detalhes cirúrgicos do cenário atual.
Parabéns pela matéria e obrigado por compartilhar o seu conhecimento.
Excelente linguagem textual. Escrita digna de um Professor, atingindo a compreensão de todos os públicos. Parabéns!!