Olhar para o passado da literatura brasileira e encontrar nele as chaves para decifrar as complexidades do presente exige mais do que método; exige sensibilidade e escuta atenta. Nossa convidada de hoje domina essa arte como poucas.
Tenho a honra de conversar com Elaine Brito, professora, escritora e uma das vozes mais respeitadas na cena intelectual contemporânea quando o assunto é a genialidade de Lima Barreto. Doutora em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) — onde defendeu sua tese justamente sobre o autor carioca — e Mestre pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Elaine transformou o estudo da nossa literatura em um espelho das nossas próprias contradições sociais e históricas.
Mas sua relação com a palavra escrita ultrapassa as fronteiras da análise acadêmica. Elaine também habita o território da criação. Como poeta, é autora do livro Fenda, uma obra que, assim como suas investigações, investiga as fissuras da existência através de uma linguagem potente e singular.
Elaine, Seja bem-vinda.
É um privilégio receber você para essa conversa.
1– Roberto Valleck: Elaine, muitos estudos científicos nascem de uma inquietação pessoal ou de uma observação do cotidiano. Qual é a história por trás do nascimento da sua linha de pesquisa?
Elaine Brito: Depois do mestrado e do doutorado, eu vejo como o Lima foi um escritor injustiçado. E como isso afetou sua saúde, o que deve acontecer com muitas pessoas por aí. É uma questão afetiva, sim. Mas também é uma questão de justiça. Agora, no pós-doutorado, me sinto mais livre para falar do Lima como um intelectual negro, suburbano e atento às questões de gênero. No início do século XX, ele já denunciava o feminicídio, por exemplo. Na época, quem estava preocupado com isso? Como suburbana, professora e aspirante a escritora, me identifico muito com o Lima. Ele sempre tem muito a dizer.
2 Roberto Valleck: Quem era Lima Barreto antes de ser “O Lima Barreto”?
Elaine Brito: Costumo dizer que Lima Barreto era conhecido, mas não reconhecido. Lima Barreto, talvez, tenha se tornado “O Lima Barreto” com a publicação da obra completa, o que só aconteceu em 1956, ou seja, mais de trinta anos depois de sua morte, em 1922. Mesmo assim, com ressalvas por parte da crítica acadêmica, que, por muito tempo, abordou a obra de Lima Barreto de forma muito redutora, estereotipada e, muitas vezes, preconceituosa. Hoje, nós sabemos que Lima Barreto é “o cara”, ou seja, um dos maiores escritores do século XX.
3- Roberto Valleck: Lima foi um dos maiores críticos das teorias falsas de sua época que tentavam usar a ciência para dizer que os negros eram inferiores e que o Brasil precisava “clarear” a população. Como os livros dele conseguiram combater esse preconceito e mostrar a realidade do racismo? Além disso, como essa coragem de falar a verdade fez com que ele fosse deixado de lado e isolado pelos outros escritores e governantes da época?
Elaine Brito: De fato, Lima Barreto foi o primeiro escritor da nossa literatura a falar abertamente sobre racismo, o que fica evidente logo no seu primeiro romance, Recordações do escrivão Isaías Caminha, de 1909. A narrativa tem como herói um jovem negro, algo que não era comum na literatura brasileira, habituada a protagonistas brancos, mesmo quando se queria falar de escravidão. O livro de estreia de Lima Barreto faz uma denúncia grave: a ausência de projeto do estado brasileiro para a população negra no pós-abolição, tema recorrente em sua obra. A crítica reduziu a história de Isaías a mera revanche pessoal de Lima, fechando os olhos para os problemas estruturais que persistem até hoje. Na época, Lima Barreto foi “cancelado” por causa desse livro, o que diz muito sobre sua trajetória como intelectual negro.
4- Roberto Valleck: Na época de Lima Barreto, muitos críticos diziam que ele escrevia de forma “relaxada” ou parecida demais com um jornal, já que ele não usava aquela linguagem cheia de regras e palavras difíceis que a elite da época valorizava. Sabendo que Lima Barreto defendia que a escrita deveria servir para lutar contra as injustiças, podemos dizer que ele escolheu de propósito um jeito mais simples de escrever para fazer política? Ao fazer isso, ele já estava adiantando o debate de hoje sobre a importância de o escritor falar da sua própria realidade e usar a literatura para mudar a sociedade?
Elaine Brito: Sim, podemos dizer que, ao empregar uma linguagem mais próxima da oralidade, Lima Barreto desejava diminuir a distância entre obra e público. Nesse sentido, podemos dizer que Lima Barreto antecipa princípios da estética modernista, como a crítica ao academicismo e a valorização do cotidiano, o que inclui, naturalmente, a busca pela língua brasileira, em oposição ao cânone europeu.
5 – Roberto Valleck: As internações de Lima no Hospital Nacional de Alienados são frequentemente analisadas em sua biografia. Olhando pelo prisma dos estudos interseccionais atuais, até que ponto o diagnóstico de loucura e o alcoolismo foram utilizados pelo Estado e pela sociedade médica da época como ferramentas de controle social e silenciamento de um intelectual negro dissidente?
Elaine Brito: O caso de Lima Barreto me parece exemplar para pensar a repressão policial como braço armado do poder médico sobre a população carioca nas primeiras décadas do século XX, dominadas por ideias de racionalização e higienização do espaço público. Em Literatura como missão, por exemplo, o professor Nicolau Sevcenko diz que houve um aumento de 7000% na quantidade de internações no hospício na primeira década de República. Logo no primeiro registro do Diário do hospício, Lima Barreto se queixa de ter sido conduzido ao Hospital de Alienados pela polícia, como se fosse um criminoso. Ora, ele tinha consciência de que era uma pessoa correta e, se tinha problemas com a bebida, isso se devia às suas dores, que eram muitas. Pobreza, exclusão, racismo. A falta da mãe, a loucura do pai, o excesso de responsabilidades. Fanon perguntaria: é loucura mesmo ou são os efeitos nefastos da colonização? É impressionante como Lima, em condições materiais e emocionais muito adversas, produz um verdadeiro contradiagnóstico: “De mim para mim, sei que não sou louco.” Hoje, nós sabemos que o alcoolismo é uma doença, mas já serviu como argumento para questionar a qualidade de Lima como escritor. Puro preconceito disfarçado de opinião técnica.
6 – Roberto Valleck: Em Clara dos Anjos, Lima Barreto expõe a vulnerabilidade da mulher negra e suburbana frente à malandragem e ao privilégio da classe média branca (representada por Cassi Jones). Como a sua pesquisa avalia a sensibilidade de Lima Barreto para as questões de gênero articuladas à raça, muito antes de o conceito de “interseccionalidade” ser cunhado na academia?
Elaine Brito: Em Clara dos Anjos, a descrição dos personagens passa por quatro aspectos fundamentais: cor da pele, traços étnicos, grau de instrução e classe social. Essas características, combinadas, funcionam não apenas como coordenadas na pirâmide social, mas também como indicadores do nível de complexidade do drama vivido por cada um. Acrescente-se a isso o fato de ser homem ou mulher. Vejamos o caso de Clara: ela é seduzida por Cassi, por quem se apaixona perdidamente, e acredita firmemente que a união será bem-sucedida, mesmo sendo negra e, ele, branco. Afinal, o amor prevalecerá, sobretudo com uma gravidez em curso. Clara, porém, é humilhada pela família de Cassi, que recusa a ideia de um casamento interracial. Clara e Cassi pertencem, ambos, a famílias suburbanas, sendo Clara bem mais instruída que Cassi. A questão racial, porém, se impõe de modo violento. O pioneirismo de Lima Barreto estaria, então, em falar especificamente da opressão sofrida pela mulher negra. Não por acaso, Lima Barreto dedica Clara dos Anjos à memória da mãe.
7 – Roberto Valleck: Antes de Lima Barreto, a literatura costumava ignorar os subúrbios do Rio de Janeiro ou tratá-los apenas como piada ou deboche. Ao transformar o subúrbio no cenário principal de suas histórias, Lima Barreto mudou a forma como o Brasil enxergava a periferia? Qual foi a importância social dessa escolha para dar voz e identidade ao povo carioca que vivia longe do centro?
Elaine Brito: Quando Lima Barreto insere o subúrbio na cena literária brasileira, ele quer mostrar ao Brasil oficial como vivem os habitantes do Brasil não oficial, abandonado pelo poder público. Se Euclides da Cunha revelou o sertanejo e Monteiro Lobato o caipira, Lima Barreto completa o quadro com o suburbano. Acho importante dizer que, na minha visão, Lima Barreto não romantiza a pobreza. Pelo contrário. Em Clara dos Anjos, o narrador diz que o subúrbio é o “refúgio dos infelizes”. Por outro lado, o subúrbio comparece na obra de Lima Barreto como um espaço de síntese cultural, onde a flauta, por exemplo, um instrumento de prestígio, encontra o violão, socialmente desmoralizado. No subúrbio de Lima Barreto, as pessoas transitam entre a valsa e a modinha, o que pode ser entendido, talvez, como as origens de uma cultura verdadeiramente popular. Outro aspecto que pretendo desenvolver é: na obra de Lima Barreto, o subúrbio não é apenas cenário, mas uma condição existencial. O suburbano tem sensibilidade e identidade próprias. Guimarães Rosa disse que o “sertão é dentro da gente”. O subúrbio também.
8- Roberto Valleck: Na literatura, o personagem Policarpo Quaresma é aquele tipo que ama o Brasil de um jeito cego e exagerado, acreditando em soluções mágicas para o país, o que acaba terminando em tragédia para ele. Na história, o autor Lima Barreto usa o deboche para criticar o governo do Marechal Floriano Peixoto e a forte presença de militares no poder naquela época. Trazendo isso para o Brasil de hoje, onde a nossa bandeira, as cores do país e o próprio significado de ser patriota viraram motivo de briga feia entre lados políticos diferentes: como essa crítica feita há mais de um século nos ajuda a entender o papel dos militares e o uso dos símbolos nacionais na nossa política atual?
Elaine Brito: De fato, a anatomia do florianismo, descrita por Lima Barreto, me parece muito semelhante à do bolsonarismo. O lema “O Brasil acima de tudo”, por exemplo, seria facilmente defendido por Policarpo nas primeiras partes do romance. É importante dizer que o que está em jogo na crítica de Lima Barreto não é o fato de ser patriota, e sim o patriotismo como fetiche. O desejo de pertencimento à pátria é um sentimento legítimo e até desejável. O problema surge quando o patriotismo é usado para esvaziar o debate interno. A luta pelo bem-estar coletivo é substituída pelo culto aos símbolos e às lideranças. No Bruzundangas, o narrador se refere ao salvador da pátria como o “Messias”. Nesse contexto, aquele que denuncia os conflitos e as desigualdades acaba sendo visto como inimigo. É justamente isso que acontece com Policarpo. Seu fim é triste porque defende os direitos humanos dos prisioneiros do regime. O nosso herói termina sua história traído pela própria ideologia.
9 – Roberto Valleck: Lima viveu à margem do cânone e morreu precocemente em 1922, ano da Semana de Arte Moderna, evento que ironicamente o eclipsou por décadas. Hoje, ele é amplamente celebrado (sendo inclusive homenageado na FLIP em 2017). Essa “canonização” tardia pela academia corre o risco de domesticar o radicalismo político de Lima, transformando-o em um autor “palatável”?
Elaine Brito: Não vejo dessa forma. Acho que o reposicionamento de Lima Barreto na nossa literatura acontece num contexto em que os movimentos identitários reivindicam o seu lugar e a sua importância na formação da sociedade brasileira. Se Lima Barreto é alvo de reconhecimento tardio, as pessoas lutaram por isso, não foi por benevolência da academia. Para mim, Lima Barreto continua sendo um personagem incômodo. A diferença é que, hoje, temos mais recursos para interpretar sua obra, de modo que ela não seja vista apenas como expressão de um escritor “maldito”. Na verdade, é um escritor “mal lido”.
José Garcia Margiocco (18? – 1923), escritor e jornalista
(Careta, 11 de novembro de 1922)
10 – Roberto Valleck: Lima escreveu para grandes jornais, mas também para a imprensa alternativa e operária, além de periódicos como O Homem de Cor. Como a você analisa a dualidade de Lima Barreto entre o desejo de inserção nos espaços oficiais de legitimação (como suas tentativas de entrar na Academia Brasileira de Letras) e sua atuação na imprensa combativa e anarquista?
Elaine Brito: Acho que uma coisa não exclui a outra. Conceição Evaristo, uma das maiores escritoras brasileiras do século XXI, símbolo da luta das mulheres negras, uma intelectual posicionada ao lado das minorias, também se candidatou à ABL e, assim como Lima Barreto, não foi aceita. Todo mundo quer ser reconhecido. Se você é escritor e tem consciência da importância da sua obra, isso é natural. Negar esse direito às pessoas é que não me parece legítimo.
11- Roberto Valleck: Mesmo sem ter feito parte da famosa Semana de Arte Moderna de 1922 e tendo suas desconfianças com os escritores de São Paulo, Lima Barreto já escrevia usando a língua do dia a dia, criticava duramente as injustiças do Brasil e abandonava aquele estilo de escrita chique e difícil da época — que eram justamente as bandeiras que os modernistas defenderiam mais tarde. Diante disso, como devemos entender a importância de Lima Barreto para a nossa literatura? Ele deve ser visto apenas como um ‘preparador de terreno’ (um pré-modernista, como os livros antigos dizem) ou ele já foi o verdadeiro criador do estilo moderno de escrever na literatura brasileira?
Elaine Brito: Para mim, Lima Barreto é um escritor em sintonia com a modernidade. Em sua obra, o “novo” se manifesta de muitas formas: a centralidade do povo, a realidade cotidiana, a linguagem coloquial, a denúncia do racismo, do machismo e dos privilégios de classe. Lima Barreto também é um escritor moderno quando questiona a identidade cultural brasileira pensada como cópia da tradição europeia, afastada da herança negra e dos povos originários. A classificação como pré-modernista pode ser vista como uma simplificação didática, mas também pode mascarar a tentativa da crítica paulista em diminuir o seu legado. Quando Lima Barreto escreveu um artigo criticando o futurismo da revista Klaxon, os modernistas de São Paulo responderam. Disseram que o Lima não sabia de nada, era um “escritor de bairro”.
12 – Roberto Valleck: Escritores contemporâneos como Conceição Evaristo, Geovani Martins e Jefferson Tenório frequentemente dialogam com a tradição inaugurada por Lima Barreto. Na sua visão de pesquisadora e referência no tema, quais são as principais heranças que a literatura de autoria negra e periférica do século XXI herdou direta ou indiretamente de Lima?
Elaine Brito: Acho que uma das maiores contribuições de Lima Barreto foi a fundação do protagonismo negro na nossa literatura. E mais do que isso: personagens negros falando em primeira pessoa. Sim, Recordações do escrivão Isaías Caminha é um romance sobre o preconceito racial. Porém, quando Isaías conta a própria história, uma história de ascensão social, inclusive, Lima Barreto toca em uma questão mais profunda: os efeitos psíquicos do racismo sobre as pessoas, algo que podemos identificar em O avesso da pele, por exemplo. Além disso, há a questão da escrevivência. Lima Barreto já foi considerado um escritor menor porque, segundo a crítica do seu tempo, produziu uma ficção marcada pela experiência pessoal, ou seja, pela vivência. Ora, todo bom escritor sabe que escrever é escrever sobre algo que se conheça. Embora a escrevivência seja um conceito associado à ancestralidade de mulheres negras, Lima Barreto já testava os limites entre memória e invenção, um procedimento recorrente na literatura contemporânea.
13- Roberto Valleck: O acesso de Lima Barreto ao Ginásio Nacional (atual Colégio Pedro II) e, posteriormente, à Escola Politécnica mostra o papel transformador da educação em sua vida. Como o contraste entre ser um homem negro nesse espaço de elite e a dura realidade da sua época se refletiu na urgência da sua escrita?
Elaine Brito: Não sei se o Lima teve, realmente, a vida transformada pela educação. Porque ele morreu pobre, passando sufoco. Então, tenho minhas dúvidas. A Conceição Evaristo fala muito sobre isso. A gente acredita que, se estudar bastante e trabalhar direitinho, a vitória é certa. Não necessariamente. Acho que a história do Lima fala sobre isso. Sempre foi um estudante exemplar e passou no vestibular da época, com muitos méritos. Mas ele acabou repetindo a história do pai, que também teve que abandonar o ensino superior para sustentar a família. Lima ficou reprovado cinco vezes na mesma disciplina e era o único estudante negro da Escola Politécnica. Com a doença do pai, não teve jeito. Abandonou os estudos e virou funcionário público. Mas o salário não dava. Então trabalhou muito na imprensa para sobreviver.
14- Roberto valleck: Agora passamos de um escritor para uma escritora:
A serpente se move de baixo pra cima.
Perpassa peito pé barriga.
Descarrega, célula a célula,
a fúria violenta da enguia.
O choque é lento.
Apoteose da fobia.
Poema: Adrenalina (FENDA, Elaine Brito – Editora Patuá – 2023)
Elaine, não posso encerrar nosso bate papo sem falar do seu livro Fenda lançado em 2023 pela editora Patua, aliás lindo este poema Adrenalina, pode falar sobre ele?
Elaine Brito: Meu livro, “Fenda”, reúne 50 poemas sobre a subjetividade feminina. Embora seja um livro de poesia, ele não deixa de contar uma história, dividida em pequenos capítulos. Começa no CORPO, passa pela CURA e termina na CONVERSA, a conversa difícil com os homens. Esse poema, “Adrenalina”, fala sobre o efeito que essa substância tem no corpo, semelhante a uma descarga elétrica, dando origem a uma crise de ansiedade ou ataque de pânico. Infelizmente, é uma realidade para muitas mulheres, já que sistemas de opressão, como o patriarcado, deixam marcas na saúde também.
Agora, estou trabalhando no meu segundo livro, sobre o subúrbio.
Roberto Valleck: Foi uma experiência incrível! Gostaria de expressar, em nome da Revista Pahnorama, nossos sinceros agradecimentos por sua generosa participação. Sua contribuição e suas reflexões sobre as obras e o legado de Lima Barreto foram de imenso valor para o enriquecimento de nossos leitores.
Reitero minha gratidão pela sua disponibilidade e pelo tempo dedicado a compartilhar seu conhecimento.
Elaine Brito: Agradeço muito pela oportunidade de falar sobre o Lima, porque já são muitos anos de pesquisa e de afeto. Meu próximo livro será dedicado ao Lima. Estou muito feliz em transformar subúrbio em poesia.
