Guto Graça Mello foi um dos principais nomes da produção musical brasileira, responsável por trilhas de novelas, filmes e projetos que marcaram gerações.

Revista Pàhnorama, Pàh de Música

Existem pessoas cuja presença no mundo é maior do que seus nomes sugerem. Guto Graça Mello era uma dessas pessoas. Para quem não o conhecia pelo nome, o reconhecia pela obra, mesmo sem saber. Estava na abertura da novela que parou o Brasil nos anos 1970. Estava na voz de Elis Regina cantando Manifesto, em 1967, quando o país ainda tinha esperança de que a arte pudesse dobrar o braço da ditadura. Estava no Plunct, Plact, Zuuum que embalou a infância de uma geração inteira de crianças brasileiras que não sabiam que havia um homem por trás daquele universo sonoro extraordinário.

Augusto César Graça Mello — Guto para os amigos, para a música e para a história — morreu nesta terça-feira, 5 de maio de 2026, aos 78 anos, no Rio de Janeiro. A causa foi uma parada cardiorrespiratória, após mais de um mês internado no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca, em decorrência de complicações de uma queda. Ele completara 78 anos em 29 de abril — seis dias antes de partir.

O ARQUITETO QUE ESCOLHEU O SOM

A história de Guto Graça Mello começa com uma decisão que, em retrospecto, parece inevitável. Filho do ator Graça Mello, sobrinho do cantor e ator Paulo Graça Mello — cujo filho Ricardo Graça Mello herdaria os palcos — e integrante de uma família que respirava arte pela tradição e pelo sangue, Guto tentou o caminho convencional da inteligência técnica: matriculou-se no curso de arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Durou pouco. O violão e a escola de música ProArte chamaram mais alto, e ele atendeu sem hesitar.

Foi a melhor decisão que um arquiteto frustrado poderia tomar — porque Guto não abandonou a arquitetura. Apenas escolheu construir com notas em vez de paredes. E o que ele construiu atravessou décadas sem precisar de reforma.

1967: O ANO EM QUE O BRASIL OUVIU SUA VOZ — SEM SABER

Tinha 19 anos quando compôs, ao lado do amigo de infância e produtor Mariozinho Rocha, duas músicas que entrariam imediatamente para a história da música popular brasileira. Manifesto, gravada por Elis Regina — naquele momento no auge de sua força criativa e política — e Cabra Macho, interpretada por Nara Leão. Dois nomes. Duas das maiores vozes do Brasil. E um compositor de 19 anos que já sabia exatamente o que estava fazendo.

Naquele mesmo período, montou o conjunto Vox Populi e partiu para o México, onde ficou três anos. O mundo era seu território natural — e assim ele se comportaria pelo resto da vida: cruzando fronteiras, aprendendo idiomas musicais novos, voltando sempre com mais do que havia levado. Do México veio um convite inusitado para compor a trilha sonora do filme norte-americano Missão: Matar. Um compositor brasileiro de vinte e poucos anos, escrevendo música para Hollywood antes mesmo de o Brasil inteiro saber seu nome.

A GLOBO, BERKELEY E A TRILHA DE UMA NAÇÃO

O chamado de volta ao Brasil veio por Walter Clark, então diretor-geral da TV Globo — um dos homens que mais influenciaram a cultura televisiva brasileira no século XX. Clark sabia reconhecer talento quando via. E o de Guto era evidente demais para ser ignorado.

Antes de assumir definitivamente seu posto na emissora, Guto foi estudar na Universidade de Berkeley, na Califórnia — a mesma instituição que produziu parte da contracultura americana dos anos 1960, o mesmo ambiente que respirava experimentação, liberdade e rigor técnico em proporções iguais. Ele voltou ao Brasil com tudo isso incorporado.

Na Globo, assumiu a direção musical e passou a orquestrar as trilhas sonoras das telenovelas brasileiras em um período em que a novela era, literalmente, o maior fenômeno cultural do país. Não havia janela, rádio ou praça pública que não ecoasse alguma música de novela nos anos 1970 e 1980. Muitas delas tinham a assinatura sonora de Guto por trás — mesmo quando o crédito público fosse de outro nome.

Na década de 1980, dirigiu musicalmente os festivais MPB 80 e MPB Shell, dois dos últimos grandes festivais de música popular em que o Brasil ainda apostava na canção como forma de debate cultural. Também foi, ao lado de Ezequiel Neves, um dos responsáveis pela seleção musical dos especiais infantis Pirlimpimpim e Plunct, Plact, Zuuum — programas que formaram o gosto musical de toda uma geração de crianças brasileiras que cresceram sem nunca saber quem havia escolhido aquelas músicas para elas.

Em 1984, foi nomeado produtor musical da Globo. O título era apenas a formalização do que já era óbvio.

A VIDA FORA DA TELEVISÃO — E MAIS PERTO DA MÚSICA

Guto Graça Mello afastou-se da televisão em 1989. Poderia ter descansado na reputação que havia construído. Escolheu, ao contrário, reinventar-se. Passou cinco anos dedicado à composição e produção de jingles publicitários e peças teatrais — uma fase que muitos da sua geração encaravam como menor, mas que Guto tratava com o mesmo rigor de qualquer outra.

Depois, mergulhou na indústria fonográfica com a naturalidade de quem sempre soube que ali também era seu lugar. Trabalhou com Maria Bethânia — uma das vozes mais singulares e exigentes da música brasileira — e com Roberto Carlos, o maior nome da música popular do país em termos de alcance. Não são colaborações que se conquistam com currículo. São conquistas de respeito mútuo entre artistas que se reconhecem.

No teatro, Guto seguiu relevante até seus últimos anos. Em 2014, fez a direção musical de Se Eu Fosse Você — O Musical, baseado no filme de enorme sucesso popular. Em 2017, compôs as músicas do musical O Jogador, em parceria com Eduardo Bakr. E em 2025 — no ano anterior à sua morte — ainda estava ativo, assinando a supervisão musical do espetáculo Chatô e os Diários Associados — 100 anos de paixão, escrito por Fernando Morais e Eduardo Bakr, com direção de Tadeu Aguiar e coreografias de Carlinhos de Jesus.

Setenta e sete anos. Ainda no palco. Ainda no trabalho. Ainda compondo.

MAIS DE 30 FILMES E UMA FILMOGRAFIA QUE É UM RETRATO DO BRASIL

A lista de longas-metragens para os quais Guto Graça Mello compôs trilhas sonoras ultrapassa 30 títulos. Entre eles estão O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues — o texto que talvez mais fortemente capturou a ambiguidade moral do Rio de Janeiro dos anos 1980; A Estrela Sobe, adaptação do romance de Marques Rebelo; Cazuza — O Tempo Não Para, a cinebiografia do poeta que escreveu sobre a AIDS quando o Brasil preferia olhar para o lado; e Se Eu Fosse Você, o maior sucesso comercial do cinema brasileiro de sua geração.

Trinta filmes. Mais de três décadas de cinema. Cada um com uma linguagem sonora diferente, cada um exigindo que Guto encontrasse o tom emocional certo para imagens que, sem música, seriam apenas sequências de cenas.

UMA VIDA QUE SOOU MAIOR DO QUE O NOME

Guto Graça Mello não era o tipo de artista que preencheu capas de revistas ou ganhou reality shows. Era do tipo mais raro e mais necessário: o que trabalha nas camadas invisíveis da cultura, aquelas que só percebemos quando somem. O arranjador que faz a orquestra soar como uma única voz. O produtor que ouve o que o artista ainda não sabe que quer dizer. O compositor que entende que a música de fundo de uma novela não é decoração — é emoção aplicada.

Ele nasceu em 29 de abril de 1948. Morreu em 5 de maio de 2026. Entre essas duas datas há 78 anos de uma vida que o Brasil ouviu muito mais do que conheceu — e que agora, ao saber de sua partida, começa a entender o quanto lhe deve.

Guto Graça Mello está em silêncio. Mas a música que ele deixou não vai parar.

Guto Graça Mello — compositor e produtor musical. Rio de Janeiro, 29 de abril de 1948 – 5 de maio de 2026.

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