Existe um tipo de crime que acontece todos os dias, em todos os países do mundo, dentro de casas que parecem normais, em bairros que parecem comuns, praticado por pessoas que a vítima conhece e, muitas vezes, confia. Não é novo nem raro. E, apesar de tudo, ainda é tratado como assunto proibido, coisa que se sussurra, que se esconde, que se prefere não ver. A violência sexual contra crianças é uma das crises humanitárias mais subnotificadas do planeta — e os dados mais recentes mostram que ela não está diminuindo. Está crescendo. E encontrou, nas redes sociais e nos ambientes digitais, um novo e assustador território de expansão.
Em abril deste ano, um caso registrado em São Paulo voltou a colocar o tema nas manchetes e reacendeu um debate urgente: o de que nenhuma comunidade, nenhuma cidade e nenhuma família está imune a esse problema. O episódio, amplamente noticiado pela imprensa brasileira, serviu como um doloroso lembrete de que a violência sexual infantil não é uma abstração estatística. Ela tem endereço, tem rosto e, o que é mais perturbador, tem um entorno de silêncio que a alimenta. Silêncio das famílias que não sabem como agir. Silêncio das comunidades que têm medo. Silêncio de um sistema que ainda não chegou onde precisa chegar.
O tamanho invisível do problema
Os números da Organização das Nações Unidas são difíceis de assimilar — não porque sejam complexos, mas porque são grandes demais para caberem confortavelmente na nossa ideia de mundo. Quase 90 milhões de meninos e meninas já vivenciaram episódios de violência sexual. E 650 milhões de meninas e mulheres — o equivalente a uma em cada cinco — foram vítimas de violência sexual ainda na infância. Não são dados de um passado distante. São pessoas vivas, que carregam essas marcas hoje.
Um relatório da ONU revelou que cerca de 300 milhões de crianças foram afetadas por exploração sexual e abuso infantil online apenas nos últimos 12 meses. Trezentos milhões. Para ter uma referência de escala: é mais do que toda a população do Brasil.
O que tornou esse cenário ainda mais grave nos últimos anos foi a chegada da internet como ferramenta ativa dentro desse crime. A violência contra a infância — seja física, emocional ou sexual — constitui uma crise mundial que ocorre nos lares, escolas, comunidades e na internet. E a internet, que deveria ser espaço de aprendizado e conexão, passou a ser também um espaço de risco real e crescente para crianças e adolescentes.
O Brasil no centro do mapa
O Brasil não está à margem desse problema. Está, dolorosamente, no seu centro. No país, a cada hora, pelo menos 33 denúncias de violações contra crianças e adolescentes são registradas pelo Disque 100. Somente em 2024, o canal do Ministério dos Direitos Humanos recebeu mais de 657 mil queixas — um aumento de 22,6% em relação ao ano anterior.
Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 são ainda mais específicos e, por isso, ainda mais perturbadores: 88,2% das vítimas de estupro no país são meninas; 52,2% são negras; 61,6% têm até 13 anos; e 61,7% dos casos acontecem dentro da própria residência. Em 84,7% das situações, o agressor é um familiar ou alguém próximo da vítima.
Créditos: Eric Bezerra/MPMG
Isso significa que o maior perigo para uma criança brasileira não está na rua. Está, na maioria das vezes, dentro de casa. Essa é uma das razões pelas quais o silêncio é tão frequente: quando o agressor é parte da família, denunciar parece — e muitas vezes é — uma ruptura de mundo. Especialistas apontam que o medo, a vergonha e a dependência financeira são os principais obstáculos que impedem famílias de acionar os mecanismos de proteção disponíveis.
No ambiente digital, o cenário é igualmente grave. O Brasil ocupa a quinta posição num ranking de 51 países com o maior número de denúncias de abuso sexual infantil pela internet. De 2022 a 2024, o país saiu da 27ª posição para essa colocação atual — uma escalada que reflete tanto o aumento real dos crimes quanto a maior capacidade de denúncia, mas que de qualquer forma exige atenção imediata.
A internet como nova fronteira do crime
A tecnologia não criou a violência sexual contra crianças. Mas deu a ela uma velocidade, um alcance e uma capacidade de impacto que não existiam antes. Em apenas um ano, uma em cada cinco crianças e adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos foi vítima de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia — cerca de 3 milhões de meninas e meninos.
Créditos: Eric Bezerra/MPMG
Esse dado vem de um relatório produzido pelo UNICEF Innocenti em parceria com a ECPAT International e a INTERPOL, lançado em março de 2025, e é considerado um dos levantamentos mais abrangentes já feitos sobre o tema no país. Em 66% dos relatos, a violência ocorreu apenas em meios digitais, principalmente via redes sociais, aplicativos de mensagens ou plataformas de jogos online.
Redes sociais. Aplicativos de mensagens. Plataformas de jogos. Ambientes que fazem parte da rotina de qualquer criança hoje. E que, sem supervisão, sem educação digital e sem regulação adequada, se tornam espaços de risco. A SaferNet Brasil identificou um crescimento alarmante: entre janeiro e julho de 2025, 64% de todas as denúncias recebidas pelo Canal Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos foram de abuso e exploração sexual infantil na internet. O relatório aponta ainda uma tendência nova e perturbadora: o crescimento de material de abuso sintético gerado por inteligência artificial.
Créditos: Eric Bezerra/MPMG
O que pode mudar
A questão, depois de absorver tanta informação pesada, é: o que se faz com isso. E a resposta, segundo especialistas, organizações internacionais e profissionais que trabalham na linha de frente, passa por três frentes simultâneas: prevenção, denúncia e acolhimento.
Prevenção começa em casa e na escola — com conversas francas sobre corpo, limites, segurança e confiança. Não existe idade cedo demais para ensinar uma criança que ela tem direito sobre o próprio corpo. Existe, porém, uma quantidade enorme de tabus que precisam ser derrubados para que isso aconteça.
A denúncia é o elo mais frágil da corrente. O subprefeito da região onde ocorreu o caso de São Paulo em abril foi direto: a família não denunciou por medo. Esse medo é real, compreensível e, ao mesmo tempo, o maior aliado do agressor. Os canais existem: o Disque 100 recebe denúncias anônimas 24 horas por dia, sete dias por semana. A SaferNet recebe denúncias de crimes digitais. A polícia pode e deve ser acionada.
O acolhimento, por sua vez, é o que determina o caminho que a vítima vai percorrer depois da denúncia. Programas como o Projeto Bem-Me-Quer, do governo do estado de São Paulo, são exemplos de redes de suporte que precisam existir em todo o país — com assistentes sociais, profissionais de saúde e psicólogos preparados para receber crianças que passaram pelo inimaginável.
A regulação das redes sociais também entra nesse debate como ponto central. Especialistas e o próprio governo federal defendem que regular as plataformas digitais de maneira transparente e objetiva é parte indispensável da proteção da infância.
O que todos nós temos a ver com isso
Existe uma tentação humana, diante de números assim, de se distanciar. De pensar que é problema de outro bairro, outra cidade, outra família. Mas os dados não deixam esse conforto. A violência sexual contra crianças acontece em todas as classes sociais, em todos os contextos, em todos os países. O que varia é quem tem mais acesso a proteção, informação e justiça depois que ela acontece.
A Gezyka Silveira, coordenadora de Proteção e Desenvolvimento Infantil da Plan International Brasil, resume com clareza o que está em jogo: sem informação, sem políticas públicas intersetoriais, sem apoio às vítimas e sem campanhas contínuas de prevenção, o ciclo não se quebra. E cada criança que não foi protegida é uma falha coletiva — não apenas do Estado, não apenas da família, mas da sociedade que prefere não falar sobre o assunto.
Falar é um começo. Denunciar, quando necessário, é um ato de coragem que salva vidas. E entender a dimensão real desse problema — sem romantizar, sem minimizar, sem desviar o olhar — é a única forma de começar a mudar o que está errado.
Se você souber de algum caso de abuso contra criança ou adolescente, denuncie pelo Disque 100 (24h, gratuito e anônimo) ou pelo site da SaferNet Brasil em safernet.org.br
