Marcos Vinícius não percebeu quando o cansaço deixou de ser circunstancial para se tornar permanente. Aos 32 anos, empregado formal, rotina estável e metas cumpridas, ele fazia o que sempre aprendeu a fazer: seguir em frente. O desconforto inicial parecia comum, desses que se explicam por uma semana difícil ou por uma noite mal dormida. Mas o tempo passou e o corpo não respondeu como antes. Vieram as falhas de memória, a irritação sem motivo aparente, a dificuldade de concentração. O descanso já não restaurava. Apenas interrompia, por poucas horas, um desgaste contínuo.

A rotina acelerada de Marcos Vinícius e pressão social nas grandes empresas brasileiras.

Quando finalmente procurou ajuda médica, ouviu o diagnóstico que ainda hoje encontra resistência fora dos consultórios: burnout. Não foi surpresa. Foi confirmação.

“Eu achei que era só uma fase. Que todo mundo estava assim. Que eu precisava aguentar”, conta.

A frase, repetida com pequenas variações por trabalhadores de diferentes áreas, revela mais do que uma percepção individual. Indica uma cultura.

Quando o excesso se torna regra

Há um deslocamento silencioso em curso na forma como o trabalho e a produtividade são percebidos. Durante décadas, o esforço contínuo foi associado ao progresso, à conquista, à estabilidade. Era uma lógica linear, quase pedagógica: quem se dedica mais, alcança mais. O problema é que essa equação deixou de considerar os limites humanos.

A Organização Mundial da Saúde reconheceu o burnout como um fenômeno ocupacional resultante de estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente gerenciado. Não se trata, portanto, de fragilidade individual, mas de uma resposta a condições persistentes de pressão.

No Brasil, esse cenário encontra terreno fértil. Dados da International Stress Management Association indicam que o país figura entre os que apresentam maiores índices de estresse e ansiedade no mundo. Não é um desvio estatístico. É uma tendência consolidada.

A vida medida por desempenho

O que se observa, na prática, é uma ampliação das exigências sem a correspondente revisão dos limites. Jornadas extensas, metas progressivamente mais altas e a sensação constante de urgência formam um ambiente em que a pausa deixa de ser parte do processo e passa a ser vista como falha.

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva acompanha esse movimento de perto. Para ela, há uma inversão de valores que precisa ser compreendida com clareza.

“A sociedade passou a valorizar o excesso como se fosse virtude. Estar sempre ocupado, sempre cansado, virou sinal de comprometimento. Isso cria um padrão insustentável.”

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva – Divulgação

Essa lógica se infiltra de maneira sutil no cotidiano. Não se apresenta como imposição explícita, mas como expectativa compartilhada. O indivíduo internaliza a cobrança e passa a se autoavaliar com base em parâmetros que não controla.

A engrenagem que não desacelera

O filósofo Byung-Chul Han descreve esse fenômeno como uma transição da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho. Se antes a pressão vinha de fora, hoje ela é reproduzida pelo próprio indivíduo, que se coloca em um ciclo contínuo de autoexigência.

Nesse modelo, não há necessidade de vigilância constante. O controle é incorporado. O trabalhador se torna, ao mesmo tempo, executor e fiscal de si mesmo.

Byung-Chul Han nos explica como é viver na sociedade do cansaço e como mudar essa realidade

“Como contraponto, a sociedade do desempenho e a sociedade ativa geram um cansaço e esgotamento excessivos. Esses estados psíquicos são característicos de um mundo que se tornou pobre em negatividade e que é dominado por um excesso de positividade. (…) O excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma.”

Byung-Chul Han, em ‘Sociedade do cansaço’

A consequência é uma exaustão que não encontra um ponto claro de ruptura. Não há um evento específico que explique o esgotamento. Há, sim, uma sucessão de demandas que se acumulam até ultrapassar a capacidade de resposta.

Os sinais que se espalham

Nos registros oficiais, esse processo começa a aparecer com maior nitidez. O Instituto Nacional do Seguro Social aponta aumento nos afastamentos por transtornos mentais, incluindo quadros de ansiedade e depressão relacionados ao trabalho.

Por trás dos números, há trajetórias interrompidas. Há profissionais que se afastam sem saber exatamente quando começaram a adoecer. Há outros que permanecem ativos, mas operando em um nível reduzido de energia e atenção.

Sinais de burnout e esgotamento emocional no trabalho, o burnout no Brasil. – Créditos: DC Studio para Magnific

Juliana, 29 anos, descreve essa sensação com precisão: “Eu continuo trabalhando, continuo entregando, mas não tenho mais disposição. Parece que estou sempre no limite, mesmo quando o dia não foi tão pesado.”

A fala não carrega dramaticidade. Carrega constatação.

O medo de parar

Entre os fatores que mantêm esse ciclo, o medo ocupa posição central. Não se trata apenas de receio abstrato, mas de uma preocupação concreta com estabilidade financeira, reconhecimento profissional e continuidade de carreira.

Roberto, 41 anos, gerente comercial, resume essa tensão: “Parar parece perigoso. Como se qualquer pausa pudesse me tirar do jogo.”

Essa percepção não surge do nada. Ela é construída em um ambiente competitivo, em que a substituição é rápida e a margem para erro, estreita. O resultado é uma adesão quase automática ao ritmo imposto, mesmo quando ele já se mostra prejudicial.

A culpa como sintoma

Se há um elemento que atravessa essas histórias, é a culpa. Não a culpa associada a uma falha específica, mas a sensação difusa de não estar fazendo o suficiente.

Aline, 34 anos, professora, relata: “Quando eu descanso, sinto que deveria estar fazendo outra coisa. É como se o descanso precisasse ser justificado.”

O retrato de uma mulher negra, exausta no ambiente de trabalho, mostrando o burnout e cansaço mental no Brasil. – Créditos: DC Studio para Magnific

Esse tipo de percepção revela um ponto crítico. O descanso, que deveria ser parte natural da rotina, passa a ser visto como exceção. Algo que precisa ser merecido, planejado ou compensado.

Entre o indivíduo e o sistema

A tendência de individualizar o problema contribui para sua perpetuação. Ao atribuir o esgotamento exclusivamente à falta de organização ou de resiliência, ignora-se o contexto em que esse esgotamento se produz.

Isso não significa eliminar a responsabilidade individual, mas ampliá-la. Reconhecer que há fatores estruturais envolvidos é condição para qualquer mudança efetiva.

Sem esse reconhecimento, o ciclo se repete. O indivíduo adoece, se recupera parcialmente e retorna ao mesmo ambiente que contribuiu para o adoecimento.

Um país no limite

O que se delineia, portanto, não é apenas um conjunto de casos isolados, mas um padrão coletivo. Um país que funciona com base na intensificação contínua do trabalho, na redução dos espaços de pausa e na valorização do desempenho acima do bem-estar.

Esse modelo produz resultados no curto prazo. Mas cobra um preço crescente no médio e longo prazo.

A exaustão deixa de ser um episódio e passa a ser um estado.

A pergunta permanente

Marcos, ainda em processo de reorganização da rotina, evita conclusões definitivas. Prefere observar o próprio percurso com alguma distância.

“Eu achava que precisava ser mais forte. Hoje eu vejo que precisava entender o meu limite.”

A mudança de perspectiva é sutil, mas significativa. Ela desloca o foco da resistência para o reconhecimento.

E talvez seja justamente aí que começa qualquer possibilidade de transformação.

Para quem chegou até aqui

Se o cansaço se tornou constante, se o descanso já não recupera, se a sensação de estar sempre devendo se repete, é possível que a questão não esteja apenas na forma como a rotina é organizada.

Pode estar no próprio modelo que define essa rotina. Entender isso não resolve tudo. Mas ajuda a colocar a pergunta no lugar certo.

E, às vezes, é o primeiro passo que ainda falta.

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Ana Paula Tergilene é professora, pedagoga, jornalista, editora-chefe e fundadora da Revista Pàhnorama. Com mais de 25 anos de atuação na imprensa, construiu uma trajetória marcada pelo jornalismo crítico, independente e comprometido com a verdade, a diversidade e os direitos humanos. Atua nas áreas de política, cultura e sociedade. É referência em narrativas que dão voz a quem historicamente foi silenciado, unindo rigor jornalístico, sensibilidade social e visão estratégica de comunicação.

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