
Uma das primeiras coisas que me vem à cabeça quando vou escrever é o título do texto. Pensei em: “Primeira semana de um conto negro/afro-brasileiro”, mas logo percebi que raça (negro) ou naturalidade (africano/americano/brasileiro), não dão conta de falar sobre a importância de ver essa novela no ar.
A TV é a grande professora do Brasil, ela interfere e influencia o nosso modo de ver o mundo. Um grande elenco negro em papéis diversos, é a possibilidade de naturalizar a presença de pessoas negras em todos os lugares.
Não é sobre tirar pessoas brancas. É sobre pessoas diversas conseguirem se enxergar!
É pensar em um título ou descrever um personagem e não citar sua cor da pele.
A Nobreza do Amor contribui para que o país naturalize potência, beleza, inteligência, entre outras características positivas na cultura negra.
Possibilita, por exemplo, combater à intolerância religiosa ao mostrar um rei justo e devoto de Xangô, orixá da justiça divina, do equilíbrio e da verdade. O oposto de um demônio do mal que foi convenientemente criado pela religião do colonizador.
A história tem ares de fábula com bastante amor, muitos dramas e alívios cômicos. A ambientação traz à memória clássicos da TV Globo, como O Cravo e a Rosa (2000), Chocolate com Pimenta (2003), Cordel Encantado (2011) e Gabriela (2012).
Esse, inclusive, pode ser um ponto positivo, pois permite que os autores revisitem lugares, personagens, figurinos, bordões e ainda brinquem com aparições surpresas e falas nostálgicas.
A fotografia impressiona por causa das paisagens paradisíacas. Um mar deslumbrante aparece com muita frequência e liga as cenas de África ao Brasil. A riqueza de detalhes dos figurinos é outro ponto alto. Lázaro Ramos afirmou em suas redes sociais que carrega aproximadamente 6 quilos apenas em colares.
Existe uma explosão harmônica de cores na tela. E o figurino é uma das peças centrais na composição de um personagem. Muitos colares, roupas que transmitem imponência, coroas, variadas jóias, dentre outros adornos, ajudam a criar personagens com histórias épicas.
O Brasil não precisa mais ver na TV o negro na senzala.
Essa é uma ferida profunda e ainda aberta, que inclusive precisa voltar às telinhas. Mas também a partir de um outro olhar.
Assim como a novela Lado a Lado (2012), que teve um elenco negro mais numeroso, A Nobreza do Amor também estreou com íbope em baixa. E vale lembrar que Vai na Fé (2023), com Sheron Menezzes pela primeira protagonista, registrou um ibope considerado morno em sua estreia.
Ainda assim, Lado a Lado venceu o Emmy Internacional em 2013 como melhor telenovela, e Vai na Fé se consolidou como um grande sucesso de audiência e publicidade.
Talvez o que falte à TV brasileira em suas produções para o grande público, é naturalizar a presença de um elenco diverso, de histórias múltiplas e de um universo em que todas as pessoas possam se ver, principalmente as crianças.

