O Centro Brasil no Clima e o Instituto Clima e Sociedade lançaram, nesta quarta-feira (18), em Brasília, a segunda edição do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas — considerado o mais amplo diagnóstico já realizado sobre políticas climáticas nos 26 estados e no Distrito Federal. A publicação conta com apoio do Instituto Itaúsa.

O evento teve como destaque a participação da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, que classificou o Anuário como ferramenta estratégica para orientar políticas públicas e fortalecer a governança ambiental no país.

“Fazer o Anuário é abrir a lente sobre as necessidades de cada estado. Isso é desafiador, mas essencial para formular, implementar e corrigir políticas climáticas”, afirmou a ministra. Em tom direto, ela reforçou a urgência estrutural do enfrentamento ao desmatamento: “O desmatamento tem que ser coisa do passado”.

Governança climática avança, mas ainda é desigual

O levantamento indica que o Brasil entrou em uma fase de consolidação da governança climática no nível estadual, impulsionada por compromissos internacionais e pela mobilização em torno da COP30, realizada em Belém.

Apesar dos avanços, o cenário é marcado por desigualdade estrutural. Apenas quatro estados — Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e Piauí — possuem planos integrados que combinam mitigação e adaptação. Outros ainda operam sem planejamento climático completo.

A fragilidade também se expressa no financiamento: 19 estados não possuem fundos climáticos estruturados, o que compromete a execução de políticas de longo prazo.

Para Fernanda Westin, gerente de projetos do CBC e coordenadora do Anuário, o documento vai além do diagnóstico técnico. “O Anuário orienta decisões e incentiva a evolução das ações estaduais, aproximando a política pública da realidade climática”, explicou.

Queda do desmatamento contrasta com explosão de queimadas

Um dos principais achados do estudo é o contraste entre a redução do desmatamento e o avanço das queimadas.

Em 2024, o desmatamento caiu 32,4%, totalizando 1,24 milhão de hectares. No entanto, os focos de incêndio cresceram de forma expressiva em todos os biomas:

  • Cerrado: +92%
  • Amazônia: +68%
  • Pantanal: +176%
  • Mata Atlântica: +492%

O secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, destacou que o país enfrenta uma nova frente de risco climático. “Agora temos os incêndios, diretamente ligados às mudanças do clima e aos eventos extremos”, afirmou.

Emissões caem, mas setor agropecuário segue como desafio

O Brasil registrou, em 2024, 2,1 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente em emissões brutas e 1,5 bilhão em emissões líquidas. A redução está diretamente associada à queda do desmatamento, ainda principal fonte de emissões.

A agropecuária permanece como o segundo maior emissor, seguida pelo setor de energia, com destaque para o transporte rodoviário, responsável pela maior parte das emissões.

Segundo o diretor técnico do CBC, William Wills, há um descompasso entre metas nacionais e políticas estaduais. “Grande parte das metas estaduais foi definida antes da atualização da NDC brasileira. Será necessário um alinhamento técnico e político para garantir eficiência e crescimento econômico”, avaliou.

Eventos extremos geram prejuízo bilionário

O Anuário também evidencia o impacto econômico crescente da crise climática. Em 2024, o Brasil registrou 4.699 desastres climáticos, entre estiagens, enchentes e incêndios.

Os prejuízos ultrapassaram R$ 38 bilhões, com destaque para o Rio Grande do Sul, onde enchentes históricas causaram perdas superiores a R$ 14 bilhões e deslocaram centenas de milhares de pessoas.

O dado expõe um desequilíbrio crítico: os custos dos desastres superam, com larga margem, os investimentos públicos em adaptação.

Transição energética avança, mas mobilidade ainda é entrave

O estudo aponta avanços pontuais na transição energética. São Paulo lidera a descarbonização do transporte urbano, concentrando 88% da frota nacional de ônibus elétricos.

Apesar disso, o transporte rodoviário ainda responde por mais de 90% das emissões do setor em diversos estados, evidenciando entraves estruturais na mobilidade sustentável.

Uso da terra representa oportunidade estratégica

O relatório identifica 58 milhões de hectares de pastagens degradadas com potencial de recuperação sustentável. A conversão dessas áreas é apontada como uma das maiores oportunidades de mitigação climática no país, combinando aumento de produtividade agrícola, redução de emissões e restauração ambiental.

Estados assumem papel central na agenda climática

Para Thais Ferraz, diretora programática do iCS, os estados são protagonistas na execução das políticas climáticas.

“A agenda de baixo carbono acontece na ponta. Identificamos amadurecimento institucional, integração com políticas econômicas e avanços em monitoramento e planejamento”, afirmou.

Marcelo Furtado, diretor-executivo do Instituto Itaúsa, destacou o papel do Anuário como ferramenta estratégica. “Transformar dados em ação é essencial para ampliar o acesso a financiamento climático e responder aos riscos crescentes”, disse.

Orçamento climático ganha espaço na gestão pública

Entre os avanços identificados está a adoção do orçamento climático como instrumento de gestão. Estados como Acre, Espírito Santo e Rio Grande do Norte já institucionalizaram o mecanismo.

Em São Paulo, a Lei Orçamentária Anual de 2026 destinou R$ 28,8 bilhões para ações climáticas — um marco na integração entre planejamento financeiro e política ambiental.

Diagnóstico expõe contradição central do país

A segunda edição do Anuário revela um Brasil que avança na estrutura institucional, mas enfrenta uma realidade cada vez mais pressionada por eventos extremos.

O país amplia planos, metas e instrumentos, ao mesmo tempo em que vê crescer incêndios, prejuízos bilionários e vulnerabilidades sociais.

A leitura do documento deixa claro que o desafio climático brasileiro deixou de ser apenas ambiental. Tornou-se econômico, social e, sobretudo, político.

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