Por Silver D’Madriaga Marraz

Mãe Carmem não é apenas uma Iyalorixá respeitada. Ela é memória viva, liderança espiritual, guardiã de tradições e exemplo concreto do poder que nasce quando a fé se transforma em força comunitária. Em cada gesto, oração, orientação e ritual, ela reafirma uma verdade fundamental: o candomblé não é apenas religião — é território de dignidade, de identidade, de acolhimento e de reconstrução emocional para um povo historicamente perseguido.

Ao longo de sua trajetória, Mãe Carmem ajudou a manter viva uma herança ancestral que atravessou oceanos, resistiu à escravidão, enfrentou o racismo religioso e sobreviveu ao apagamento cultural. Seu legado não está apenas nos terreiros que fortaleceu, mas nas pessoas que encontraram ali proteção, direção e pertencimento. Ela representa o que há de mais profundo na tradição das casas de axé: a fé como gesto coletivo, o cuidado como compromisso político e o sagrado como espaço de cura.

O terreiro de Mãe Carmem não é apenas um espaço religioso — é um ponto de encontro de histórias, corpos, memórias e lutas. É o lugar onde crianças aprendem a respeitar suas raízes, onde mulheres negras recuperam sua autoestima, onde homens e jovens reencontram caminhos que a sociedade tenta negar.

E isso, por si só, é resistência. Resistência contra o preconceito. Resistência contra a intolerância. Resistência contra a tentativa de silenciar religiões de matriz africana.

Quando falamos de Mãe Carmem, falamos de alguém que transforma espiritualidade em ação social. Sua liderança vai além do altar: ela orienta, aconselha, protege, fortalece emocionalmente e ensina valores como solidariedade, disciplina, dignidade e amor-próprio. Ela nos lembra que o sagrado também é cuidado psicológico, é abraço coletivo, é suporte para quem sofre.

Em uma sociedade que insiste em marginalizar corpos negros, quebrar símbolos de fé e deslegitimar saberes ancestrais, a figura de uma Ialorixá forte e respeitada incomoda — porque ela rompe narrativas coloniais e afirma: nossa fé tem história, tem poder, tem direito de existir.

O legado de Mãe Carmem é também um convite para refletirmos sobre nossa própria postura diante do mundo: Como cuidamos da nossa ancestralidade? Como valorizamos as lideranças da nossa comunidade? Como resistimos sem abrir mão da sensibilidade e da espiritualidade?

Sua trajetória nos ensina que resistir não é apenas lutar — é construir. É proteger vidas. É sustentar esperanças. É manter vivas as raízes para que novas gerações caminhem com a cabeça erguida. Mais do que uma líder religiosa, Mãe Carmem é referência de força feminina negra, sabedoria coletiva e ética do cuidado.

Seu exemplo inspira quem busca equilíbrio emocional, identidade e pertencimento. Mostra que a espiritualidade pode ser também uma forma de reorganizar a vida, de superar dores, de reencontrar propósitos. Porque o axé que ela transmite não é só ritual — é direção, é energia, é chamada à consciência. E a maior lição que fica é esta:

Resistir não é apenas sobreviver. Resistir é viver com dignidade, proteger quem caminha ao nosso lado e transformar fé em ação — como Mãe Carmem faz todos os dias. Vá em paz, a ancestralidade te abraça por retornar ao orum. Que Olódùmarè te receba.

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