Em um mundo cada vez mais orientado por dados, códigos e decisões automatizadas, uma pergunta essencial começa a ganhar espaço fora dos laboratórios de tecnologia: e se as máquinas pudessem aprender não apenas a calcular, mas a lembrar como nós lembramos? Não como bancos frios de informação, mas como sistemas atravessados por emoção, contexto e experiência. É nesse território delicado, onde ciência e humanidade se tocam, que o pesquisador brasileiro Sander Sans constrói um estudo que promete tensionar os limites atuais da Inteligência Artificial.
Brasiliense, 43 anos, professor, pesquisador e pai de dois filhos, Sander reúne uma trajetória pouco comum no debate tecnológico contemporâneo. Sua formação não nasce da engenharia ou da ciência da computação tradicional, mas da educação, das línguas e dos processos de aprendizagem humana. É justamente esse percurso que sustenta a originalidade de sua investigação: pensar a IA a partir do funcionamento da mente, da memória e das emoções humanas.

Ao longo de quase uma década, entre 2009 e 2018, Sander atuou como professor na rede pública especializada em ensino de línguas estrangeiras do Distrito Federal, vinculada à Secretaria de Educação. Passou também pelo Ensino Superior e integrou o Programa Permanente de Extensão UnB Idiomas, da Universidade de Brasília, referência nacional na difusão de línguas e na formação intercultural. Esse contato direto com processos cognitivos, memória, linguagem e emoção em sala de aula foi decisivo para moldar seu olhar científico.
Hoje, cursando um MBA na International American University, nos Estados Unidos, Sander amplia sua formação com certificações internacionais em Língua Inglesa, Business, Digital Media, Marketing e TESOL, compondo um percurso acadêmico que atravessa fronteiras e disciplinas. Mais do que acumular títulos, ele carrega uma inquietação central: compreender como aprendemos, como lembramos e por que certas memórias permanecem vivas enquanto outras se apagam.
Essa inquietação se traduz agora em um artigo científico em fase final de desenvolvimento, com previsão de publicação em 2026. O estudo parte do fenômeno da hipermnésia, condição rara associada à capacidade extraordinária de recordar eventos, detalhes e experiências com alta precisão. Embora tradicionalmente estudada pela psicologia e pelas neurociências, a hipermnésia surge, na pesquisa de Sander, como ponto de partida para um diálogo mais amplo entre cognição humana e sistemas artificiais.
A proposta do pesquisador é investigar como mecanismos emocionais e biológicos da memória humana podem inspirar novos modelos de Inteligência Artificial. Em vez de sistemas baseados apenas em armazenamento massivo de dados e reconhecimento estatístico de padrões, ele sugere observar processos como a recuperação espontânea de lembranças, o papel das emoções na fixação da memória e a importância dos detalhes sensoriais na construção do significado.
Não se trata de romantizar a tecnologia, mas de problematizar seus limites. Dados recentes de pesquisas internacionais indicam que modelos de IA, embora eficientes em tarefas específicas, ainda apresentam dificuldades significativas em contextualização, interpretação emocional e adaptação a situações ambíguas, características intrínsecas à experiência humana. Ao aproximar a IA desses processos, o estudo propõe caminhos para sistemas mais sofisticados, responsivos e eticamente sensíveis.
O debate ganha relevância em um momento em que a Inteligência Artificial se infiltra rapidamente em áreas como educação, saúde, comunicação e cultura. Segundo relatórios da UNESCO e de centros de pesquisa em tecnologia, cresce a preocupação com o distanciamento entre decisões automatizadas e valores humanos, especialmente quando algoritmos passam a influenciar escolhas sociais, econômicas e políticas.

É nesse ponto que a pesquisa de Sander Sans dialoga diretamente com os dilemas do presente. Ao colocar a memória emocional no centro da discussão, ele questiona o modelo de eficiência desumanizada que domina parte do desenvolvimento tecnológico atual. Sua investigação sugere que compreender como o cérebro humano articula emoção, lembrança e aprendizado pode ser chave para construir tecnologias menos mecânicas e mais responsáveis.
Mais do que um avanço técnico, o estudo aponta para uma mudança de paradigma. Pensar Inteligência Artificial a partir da memória humana é, também, reconhecer que não existe neutralidade absoluta nos sistemas que criamos. Toda tecnologia carrega valores, escolhas e visões de mundo. Ignorar isso é correr o risco de aprofundar desigualdades e distanciamentos já visíveis na sociedade digital.
Ao final, a pesquisa de Sander Sans não oferece respostas fáceis, nem promessas futuristas vazias. Ela convida à reflexão. Se as máquinas aprendem conosco, o que estamos ensinando a elas? E, sobretudo, que tipo de humanidade queremos preservar quando delegamos parte da nossa memória, das nossas decisões e da nossa história aos algoritmos?
Em tempos de aceleração tecnológica, talvez a inovação mais urgente seja reaprender a lembrar.

