LUZ, CÂMERA, CRÍTICA! — Por Manu Cárvalho

(Foto: reprodução/ Paris Filmes)

Desconhecidos (Strange Darling), lançado nos cinemas brasileiros em 3 de abril de 2025, chega como uma lufada de ar fresco no gênero do suspense e terror psicológico. Dirigido por J.T. Mollner, com atuações intensas de Willa Fitzgerald e Kyle Gallner, o longa é tudo menos convencional. Ele desconstrói expectativas, confunde o espectador e nos convida a participar de um quebra-cabeça moral e emocional que só se completa nos minutos finais.

Ao mesmo tempo brutal e reflexivo, Desconhecidos desafia o gênero ao tirar o foco da violência em si e colocá-lo sobre as construções de identidade, gênero e culpa. É um thriller que subverte clichês, empurra o público para fora da zona de conforto e entrega mais do que uma história sobre serial killers: oferece uma meditação intensa sobre o poder da narrativa e da percepção.

A trama: uma noite, duas histórias e um lugar no meio do nada

O ponto de partida é simples: um homem e uma mulher se encontram para um suposto encontro casual. Eles viajam juntos até uma cabana remota nas florestas do Oregon, onde a relação rápida e instável entre eles se transforma em um jogo de sobrevivência. Mas o que parece ser uma narrativa clássica de “homem perigoso versus mulher indefesa” logo é virado de cabeça para baixo.

Dividido em seis capítulos apresentados fora de ordem cronológica, o roteiro exige atenção total do espectador. A montagem não é apenas um recurso estilístico, mas um elemento fundamental para a construção do suspense e da dúvida. Cada fragmento de cena traz uma nova peça ao tabuleiro, revelando que nada é exatamente como parecia.

Willa Fitzgerald: um furacão de ambiguidades

No papel de “A Dama”, Willa Fitzgerald entrega uma atuação arrebatadora. A personagem, cujo nome real nunca é revelado, começa como uma figura que evoca empatia imediata: uma mulher em situação de perigo, cercada por um homem agressivo e manipulador. Mas conforme a história avança, surgem nuances que a distanciam desse arquétipo.

Fitzgerald equilibra fragilidade e frieza com maestria. Ela passa de vítima a estrategista sem nunca se tornar uma caricatura. Sua presença em tela é hipnotizante, e cada gesto, olhar e silêncio é carregado de tensão. Ao final, sua personagem se revela como a verdadeira protagonista de uma narrativa que parecia girar em torno de outra figura.

Kyle Gallner: charme perigoso em sua forma mais crua

Kyle Gallner, interpretando “O Demônio”, representa o arquétipo do predador carismático. Seu personagem mistura charme e ameaça com naturalidade desconcertante. Em cenas onde está em controle, sua presença é sufocante. Mas assim como a Dama, o Demônio também ganha camadas inesperadas.

Gallner é excelente ao manter o público dividido entre o medo e a curiosidade. Não sabemos se ele é um manipulador calculista ou uma vítima do próprio narcisismo. Essa ambiguidade torna sua atuação uma das mais impactantes do gênero em anos recentes.

(Foto: reprodução/ Paris Filmes)

Narrativa não linear: quebra-cabeça que desafia o espectador

A divisão em capítulos e a desordem cronológica são mais do que uma ousadia estilística: elas são essenciais para o impacto emocional do filme. J.T. Mollner sabe que o terror mais eficaz é aquele que nasce da dúvida, da desorientação moral. Quando somos forçados a questionar o que vemos e sentimos, o medo se torna pessoal.

Cada nova cena recontextualiza a anterior. Momentos de violência ganham significados diferentes conforme mais informações vão sendo reveladas. Essa estrutura cria uma sensação constante de inquietação: estamos sempre dois passos atrás da verdade.

Fotografia e estética: o terror visual de um mundo real

Filmado em 35mm, com direção de fotografia de Giovanni Ribisi, o longa aposta em uma estética granulada, com cores saturadas e luz natural. A paisagem do Oregon ganha um ar de sonho febril, onde a natureza é ao mesmo tempo bela e opressiva.

O uso de longos planos e a ausência de música em cenas-chave aumentam a tensão. Há um desconforto constante em observar os personagens sem mediação. O espectador é transformado em testemunha silenciosa de atos brutais e de pequenos momentos de humanidade. É nessa dualidade que o filme brilha.

Temas centrais: gênero, violência e narrativas de poder

Um dos aspectos mais poderosos de Desconhecidos é sua abordagem sobre o papel do gênero nas narrativas de terror. Desde Psicose a O Silêncio dos Inocentes, o gênero de um personagem costuma ditar sua posição na história: homens caçam, mulheres fogem. Aqui, essas regras são postas em xeque.

O filme também questiona a ideia de “verdade” e “vítima”. Ao mostrar como nossas percepções são moldadas por cortes, enquadramentos e escolhas de narrativa, ele coloca o espectador em uma posição desconfortável, onde é preciso reconhecer os próprios preconceitos.

(Foto: reprodução/ Paris Filmes)

Reviravolta final: um soco no estômago

Sem spoilers, é preciso dizer que o final de Desconhecidos é uma virada de mesa. Quando achamos que entendemos tudo, o último capítulo entrega uma revelação que muda completamente o peso de cada cena anterior. E o faz sem apelar para o choque barato: a reviravolta é coerente, plantada desde o início, mas habilmente escondida.

Essa é uma das raras obras onde rever o filme é quase uma obrigação. Com o conhecimento da revelacão final, cada detalhe ganha nova luz. É um filme que se expande na memória, que incomoda e convida à releitura.

Recepção da crítica: aclamação merecida

Com 91% de aprovação no Rotten Tomatoes, Desconhecidos foi celebrado por sua originalidade e coragem. Críticos como Peter Debruge (Variety) e David Ehrlich (IndieWire) destacaram a atuação de Fitzgerald como uma das mais impactantes do ano, e o roteiro de

Mollner como um exemplo raro de suspense inteligente e provocador.

A produção também conquistou o Festival de Veneza 2024, onde recebeu aplausos de pé e um prêmio especial do júri por inovação narrativa. Foi comparado a filmes como Corra! e Garota Exemplar por sua capacidade de misturar gênros e desafiar as expectativas do público.

(Foto: reprodução/ Paris Filmes)

Conclusão: um novo clássico do terror contemporâneo

Com atuações corajosas, direção precisa e um roteiro que respeita a inteligência do público, J.T. Mollner entrega um filme que será discutido, analisado e revisitado por anos. Uma obra que nos lembra que, no cinema, o terror mais profundo é aquele que revela algo sobre nós mesmos.

Nota final: ⭐⭐⭐⭐ (4/5)

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Desconhecidos

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Jornalista, publicitária, carioca, ruiva, leonina, motoqueira, dona de pet e filha do Carvalho. Informo a galera sobre esportes, cultura pop e algumas críticas de cinema. Conto histórias que estão na rotina do cidadão, do meu jeitinho carioca.

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