LUZ, CÂMERA, CRÍTICA! — Por Manu Cárvalho

(Foto: reprodução / Balboa Productions)

Desde sua estreia no cinema, Jason Statham tornou-se sinônimo de ação pura, combates intensos e personagens que resolvem as coisas com os próprios punhos. Em Resgate Implacável, que será lançado dia 27 de março de 2025, o astro britânico retorna às telonas com a força de sempre, mas trazendo uma nova camada emocional ao seu repertório. Dirigido por David Ayer — conhecido por filmes como Marcados para Morrer e Corações de Ferro — e coescrito por ninguém menos que Sylvester Stallone, o filme entrega uma narrativa tensa, violenta e surpreendentemente humana.

A trama: mais do que resgatar alguém, resgatar a si mesmo

O ponto de partida é clássico: Levon Cade (Statham) é um ex-agente de elite das forças especiais tentando viver uma vida comum. Trabalhando como operário da construção civil e criando sua filha com discrição, ele tenta enterrar o passado. Mas o passado nunca se deixa enterrar por completo. Quando Jenny, a filha de seu chefe Joe Garcia (Michael Peña), desaparece misteriosamente, Levon é puxado de volta ao mundo da violência, em uma jornada que mistura vingança, justiça e redenção.

A busca por Jenny se transforma rapidamente em um mergulho em uma teia de tráfico humano, corrupção institucional e violência desenfreada. À medida que Levon retoma suas habilidades esquecidas, a narrativa revela não apenas suas capacidades físicas, mas também as feridas emocionais que ele carrega — e que, talvez, nunca tenham cicatrizado.

Statham: o guerreiro silencioso

Jason Statham entrega aqui uma de suas atuações mais contidas e eficazes. Sem a verborragia de heróis clássicos, seu Levon Cade fala pouco, mas carrega no olhar e na postura a intensidade de quem já viu e fez demais. Cada cena de ação é executada com precisão — como se o personagem fosse uma máquina calibrada, mas prestes a explodir.

Statham convence como o homem dividido entre duas vidas: o pai protetor e o ex-soldado implacável. Sua transformação em tela é gradativa, quase orgânica. A medida que a busca por Jenny se intensifica, Levon vai se despojando da humanidade que construiu nos últimos anos, retornando à figura fria e letal que havia enterrado. No entanto, a dor que carrega nunca o abandona — e é ela que nos aproxima dele.

David Ayer e Stallone: a brutalidade tem assinatura

A combinação David Ayer e Sylvester Stallone no roteiro não poderia render outra coisa senão uma história crua, violenta e, ao mesmo tempo, reflexiva. Ayer já demonstrou domínio do universo urbano e das zonas cinzentas da moralidade em filmes anteriores, e aqui ele volta a esses temas com a maturidade de quem sabe conduzir tensão sem pressa. Stallone, por sua vez, imprime no roteiro sua visão clássica de herói trágico — homens que caem, se erguem e enfrentam seus fantasmas com dignidade.

Em Resgate Implacável, a ação é intensa, mas jamais gratuita. Cada luta, cada tiroteio, cada perseguição carrega um peso dramático. As cenas são coreografadas com realismo e brutalidade. Não há espaço para acrobacias estilizadas ou piadinhas entre socos: é sujo, é tenso, é pessoal.

(Foto: reprodução / Balboa Productions)

O lado humano do filme: pais, filhos e perdas

Além da ação, o filme surpreende ao explorar o vínculo entre pais e filhos. Tanto Levon quanto Joe Garcia — interpretado com carisma e vulnerabilidade por Michael Peña — são pais lutando por suas famílias. Joe, mais passivo e emocionalmente exposto, contrasta com o estoicismo de Levon. Essa dinâmica enriquece o enredo, mostrando que a força nem sempre está nos músculos, mas na capacidade de resistir ao desespero.

Jenny (Arianna Rivas), a adolescente desaparecida, não é apenas um “objeto” de resgate. O roteiro lhe dá agência e momentos de destaque, mesmo dentro da estrutura tradicional do gênero. Seu arco revela uma jovem forte, inteligente e determinada a sobreviver — algo raro em filmes do tipo, onde personagens femininas muitas vezes são relegadas a vítimas sem voz.

Os vilões: ameaças reais em um mundo sombrio

Viper e Artemis, interpretados por Emmett J. Scanlan e Eve Mauro, são antagonistas que não se escondem atrás de planos mirabolantes. Representam o mal banal, o crime organizado cotidiano e a impunidade que ronda as periferias das grandes cidades. A frieza de suas ações é mais aterradora justamente por sua verossimilhança.

Não há charme ou glamour nos vilões de Resgate Implacável. E isso é um acerto. Eles não precisam de frases de efeito: basta observar o rastro de destruição que deixam. Isso reforça a urgência da missão de Levon — não é apenas sobre uma pessoa, é sobre romper com um ciclo de impunidade e violência sistêmica.

Um mundo sujo, uma estética coerente

A fotografia do filme, assinada por Roman Vasyanov, é crua e granulada. As paletas de cores acinzentadas e esmaecidas refletem um mundo sem heróis reluzentes. O cenário urbano é opressivo, decadente, repleto de becos, viadutos e galpões abandonados — uma paisagem de guerra silenciosa.

A trilha sonora é discreta, mas eficaz. Momentos de tensão são pontuados por sons graves e pulsantes, sem distrações. Em cenas mais íntimas, o silêncio impera, dando espaço às expressões e aos olhares.

Crítica social entre os tiros

Resgate Implacável também encontra espaço para criticar o abandono institucional. A polícia hesita, os políticos se escondem, e cabe ao indivíduo — neste caso, um homem com passado sangrento — fazer justiça. Esse conceito de justiça pelas próprias mãos, tão comum no cinema de ação, aqui ganha novos contornos, mais sombrios e menos glorificados.

Levon não quer ser herói. Ele age por instinto, por necessidade. O filme questiona até que ponto a sociedade empurra seus cidadãos à violência quando as instituições falham. É uma provocação sutil, mas poderosa.

Recepção crítica e impacto cultural

Desde sua estreia, Resgate Implacável tem gerado reações variadas. A crítica especializada reconhece a eficácia da ação e a entrega de Jason Statham, mas alguns apontam que o filme não inova no gênero. Ainda assim, há consenso de que a produção se destaca por trazer mais densidade emocional do que o esperado.

Público e crítica convergem em reconhecer o trabalho competente de David Ayer na condução da narrativa. Ayer se reafirma como um diretor que entende de tensão, ritmo e humanidade. Sua marca está em cada cena: realismo, dor e esperança — tudo ao mesmo tempo.

Ação com alma, dor com propósito

Resgate Implacável pode até partir de uma premissa familiar, mas entrega um resultado que vai além do convencional. Com personagens bem construídos, ação impactante e temas relevantes, o filme é mais do que entretenimento — é um estudo sobre culpa, redenção e a luta constante por justiça em um mundo que insiste em falhar com os inocentes.

Statham nos mostra que o verdadeiro herói não é aquele que nunca caiu, mas aquele que se levanta pelas razões certas. E David Ayer nos lembra que até nos cenários mais escuros, a humanidade pode ser resgatada — nem que seja à força.

Nota final: ⭐⭐⭐⭐☆ (4/5)

Resgate Implacável

Jason Statham

Sylvester Stallone

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Jornalista, publicitária, carioca, ruiva, leonina, motoqueira, dona de pet e filha do Carvalho. Informo a galera sobre esportes, cultura pop e algumas críticas de cinema. Conto histórias que estão na rotina do cidadão, do meu jeitinho carioca.

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