Douglas, um brasileiro
Conheci Douglas há alguns anos. Ele estava vendendo balas na Rua 16 de Março, a mais badalada via de Petrópolis (RJ), onde moro. Não lembro o que comprei dele. Só lembro que ele me disse que estava com febre. Pus a mão na testa dele. Estava bem quente. Ele disse que vendia doces porque estava sem trabalho e estava com uma filha recém-nascida. Disse a ele que fosse à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima e deixasse os doces para mais tarde. Afinal, a saúde era mais importante.
Dias depois, encontrei Douglas novamente na 16 (é assim que, nós, petropolitanos, chamamos a rua). Ele estava saudável e sorridente. Havia seguido meu conselho e sido atendido e medicado na UPA. Que bom! Comprei algo dele, dei uma leve batidinha de mão em seu rosto, sorrimos um para o outro e seguimos nossos caminhos.
Sempre encontrava Douglas e, podendo, comprava algo dele e de outros vendedores também. Admiro a coragem desse povo que sai vendendo balas e doces pelas ruas. Nem todos têm essa coragem, apesar de a necessidade exigir. Quando não posso comprar, trato-os com gentileza.
Em maio de 2020, época da pandemia de Covid, pus a máscara e fui ao centro da cidade resolver algumas coisas rápidas. Passando por uma então vazia e fechada 16 de Março, avisto Douglas oferecendo jujuba a uma pedestre que, educadamente, disse não. Em seguida, ele me avistou.
Cumprimentamo-nos. Notei que ele estava feliz por ter me encontrado. Desta vez, ele só tinha jujuba. Perguntei quanto era (R$ 1,00) e comprei um pacotinho. Conversamos um pouco. Ele disse que estava difícil vender e que estava tentando almoçar. Perguntei onde ele estava almoçando. Resposta: havia um restaurante nas redondezas que vendia quentinhas (o marmitex daqui) a R$ 12,00. A pessoa comprava na porta e levava para comer onde quisesse. O estabelecimento fornecia talheres de plástico também, segundo informou.
Começamos a andar lado a lado, como velhos amigos. Ele disse que, com a venda que havia feito para mim, já tinha R$ 4,00 para o almoço. Faltavam, ainda, R$ 8,00. Olhei para o relógio. Já era mais de meio-dia. Olhei à volta. Ruas praticamente desertas devido à pandemia. Não andava em situação financeira confortável, confesso; entretanto, dar uma força ao Douglas, eu podia. Peguei a carteira e dei R$ 10,00 a ele. O almoço estava garantido! Jamais esquecerei o brilho em seus olhos e o sorriso de agradecimento. Só então, me dei conta de que Douglas não usava máscara. Entre feliz e comovido, ele disse que eu poderia contar com ele sempre que precisasse! Sorri para ele, embora a máscara cobrisse meu rosto.
Chegamos à esquina da 16 de Março com a Irmãos D’Ângelo. Ele atravessou rumo à Praça D. Pedro, olhou para trás e, no meio da rua, ainda a sorrir de agradecimento, repetiu a frase: – Conte comigo sempre que o senhor precisar! Então, cada um seguiu o seu rumo.
Dizem que dinheiro não traz felicidade. Nunca engoli esse dito popular. Sempre vi no dinheiro uma forma de facilitar a vida das pessoas. Dia virá em que ele não faltará a ninguém. Mas isso é outro assunto, um dia pretendo aprofundar em outra crônica.
Estou narrando isso tudo porque, há alguns dias, andando pela mesma Rua 16 de Março, lembrei-me do Douglas e me dei conta de que nunca mais o vi. Onde estará? À época, ele disse que morava em Magé, cidade próxima, e vinha a Petrópolis vender as balas e jujubas. Será que arranjou trabalho fixo? Será que a Covid o vitimou? Torço para que não!
Por enquanto, me resta o sentimento de bem-estar que se apossou de mim quando dei a ele uma felicidade que valeu R$ 10,00. E me resta também a frase plena de contentamento e gratidão: – Conte comigo sempre que o senhor precisar!
Não sei se um dia precisarei dele, mas confesso que ficaria muito feliz ao revê-lo! E bem, diga-se de passagem.
A vida vale a pena por esses momentos.
Marcelo Teixeira
Crônicas de um Cidadão Aprendiz
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